A semaglutida (Ozempic, Wegovy) e a tirzepatida (Mounjaro, Zepbound) fazem parte de uma classe de medicações que imitam hormônios naturais do próprio corpo. A semaglutida atua sobre o receptor do GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1); a tirzepatida vai além, atuando duplamente sobre os receptores de GLP-1 e GIP (polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose). Esses hormônios são liberados naturalmente pelo intestino após a alimentação, e têm um papel central em regular o apetite, a saciedade, a velocidade do esvaziamento gástrico e a liberação de insulina.
O resultado mais visível dessas medicações é a perda de peso expressiva. Mas o que os grandes estudos clínicos randomizados — o padrão-ouro da medicina baseada em evidências — vêm mostrando nos últimos anos é que o benefício vai muito além da balança.
O que os estudos mostram, um a um
Coração: menos infarto, menos morte cardiovascular
O estudo SELECT (2023), publicado no New England Journal of Medicine, acompanhou mais de 17.600 adultos com sobrepeso ou obesidade e doença cardiovascular já estabelecida, sem diabetes. Usando semaglutida 2,4 mg contra placebo, os resultados foram:
eventos cardiovasculares graves (infarto, AVC ou morte cardiovascular)
infarto do miocárdio não fatal
morte por qualquer causa
Esse último dado é particularmente relevante: o SELECT foi o primeiro grande estudo a demonstrar que uma medicação para perda de peso reduz a mortalidade geral — não apenas eventos cardiovasculares isoladamente. Parte desse benefício apareceu antes mesmo da perda de peso se consolidar, sugerindo um efeito direto sobre inflamação e metabolismo, além do simples emagrecimento.
Insuficiência cardíaca: uma condição sem tratamento específico até pouco tempo atrás
O estudo STEP-HFpEF avaliou 529 pacientes com insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada e obesidade, tratados com semaglutida por 52 semanas. Os resultados mostraram melhora considerável nos sintomas, na limitação física e na capacidade de exercício, avaliados pelo questionário KCCQ — um instrumento validado para medir qualidade de vida nesses pacientes. Até então, não existia tratamento farmacológico aprovado especificamente para essa forma de insuficiência cardíaca ligada à obesidade. Resultados semelhantes foram observados com tirzepatida no estudo SUMMIT, inclusive em pacientes com doença renal associada.
Rins: proteção mesmo em quem já tem doença renal
O estudo FLOW, com semaglutida em pacientes com diabetes tipo 2 e doença renal crônica, mostrou:
eventos renais graves (perda de função renal importante, necessidade de diálise ou morte renal)
mortalidade por qualquer causa nessa população
morte cardiovascular nesses pacientes
Apneia do sono
O estudo SURMOUNT-OSA testou tirzepatida em pacientes com apneia obstrutiva do sono moderada a grave e obesidade, mostrando reduções expressivas no índice de apneia-hipopneia (o número de pausas respiratórias por hora de sono), na carga hipóxica, na pressão arterial e em marcadores inflamatórios. Com base nesses resultados, a tirzepatida foi aprovada especificamente para essa indicação.
Diabetes tipo 2: prevenindo antes de acontecer
No estudo SURMOUNT-1, adultos com pré-diabetes e obesidade ou sobrepeso tratados com tirzepatida por 176 semanas (cerca de 3 anos) tiveram uma redução de 94% no risco de progressão para diabetes tipo 2, em comparação com placebo. Praticamente todos os pacientes tratados permaneceram livres de diabetes ao final do estudo.
Câncer: dados tranquilizadores, e possível benefício
Um dos maiores receios em torno dessas medicações é o risco de câncer — mas a evidência acumulada aponta na direção oposta. Um estudo apresentado em 2025 no congresso da ASCO (Sociedade Americana de Oncologia Clínica), com mais de 86 mil pacientes em uso de semaglutida ou tirzepatida, mostrou associação com risco moderadamente menor de cânceres ligados à obesidade — especialmente câncer de cólon e reto — além de menor mortalidade geral, quando comparados a outra classe de medicações para diabetes. Uma meta-análise reunindo 37 estudos clínicos randomizados e 19 estudos do mundo real não encontrou aumento de risco de nenhum tipo de câncer com o uso de semaglutida; para a tirzepatida, os dados também são tranquilizadores, incluindo especificamente quanto ao câncer de tireoide.
Resumindo os benefícios comprovados até aqui: menos infarto, menos AVC, menos morte cardiovascular, menos morte por qualquer causa, melhora da insuficiência cardíaca, proteção renal, melhora da apneia do sono, prevenção de diabetes tipo 2 e, muito provavelmente, redução do risco de cânceres ligados à obesidade. Poucas classes de medicamentos na história da medicina reuniram benefícios tão amplos e consistentes em estudos de tão alta qualidade.
Semaglutida ou tirzepatida: qual a diferença?
O estudo SURMOUNT-5 comparou diretamente as duas medicações, nas doses máximas toleradas, por 72 semanas: a tirzepatida promoveu uma perda de peso média de 21,6%, contra 15,4% da semaglutida. Uma análise post-hoc do mesmo estudo estimou que a tirzepatida reduziu o risco cardiovascular projetado em 10 anos em 2,4 pontos percentuais, contra 1,4 ponto percentual da semaglutida. Isso não significa que uma seja "melhor" para todo mundo — a escolha depende do seu perfil clínico, das doenças associadas e da resposta individual ao tratamento.
Segurança: os riscos reais, e por que o benefício supera de longe o risco
Nenhuma medicação é isenta de efeitos colaterais, e é importante conhecê-los com clareza:
- Efeitos gastrointestinais — náusea, vômito, diarreia, constipação e dor abdominal são os mais comuns, geralmente leves a moderados, mais frequentes durante o início do tratamento e o aumento de dose, e tendem a melhorar com o tempo e com o ajuste da titulação.
- Vesícula biliar — é o sinal de segurança mais consistente na literatura: cálculos biliares e inflamação da vesícula podem ocorrer, principalmente em quadros de perda de peso rápida e acentuada, o que reforça a importância do acompanhamento médico durante o tratamento.
- Pancreatite — as evidências mais robustas atuais, vindas de estudos populacionais grandes e ensaios clínicos randomizados, são tranquilizadoras e não mostram aumento consistente do risco em comparação com placebo, quando a medicação é usada de forma correta e com titulação adequada da dose.
- Tireoide — existe um alerta nas bulas sobre tumores de células C da tireoide, baseado em estudos com roedores; por precaução, essas medicações são contraindicadas para quem tem histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide ou neoplasia endócrina múltipla tipo 2.
- Perda de massa muscular — parte do peso perdido pode incluir massa magra, especialmente sem os cuidados adequados. Por isso, ingestão adequada de proteína, treino de força e acompanhamento nutrológico são parte essencial do tratamento, não um detalhe opcional.
O balanço final: quando você coloca lado a lado o tamanho dos benefícios comprovados — menos infarto, menos AVC, menos insuficiência cardíaca, proteção renal, prevenção de diabetes, provável redução de câncer, e menos morte por qualquer causa — e compara com os riscos reais, que são majoritariamente leves, transitórios ou evitáveis com acompanhamento adequado, a evidência científica atual mostra que os benefícios superam de longe os riscos para os pacientes com indicação correta. Essa é, hoje, uma das razões pelas quais essas medicações passaram de "remédio para emagrecer" a um dos maiores avanços da medicina cardiovascular e metabólica da última década — mas, como qualquer tratamento com esse potencial, precisa de indicação, dose e acompanhamento individualizados por um médico.
Perguntas frequentes sobre canetas emagrecedoras
Essas medicações servem só para quem tem obesidade?
Não necessariamente. A indicação depende do seu peso, das doenças associadas (diabetes, doença cardiovascular, apneia do sono, doença renal, entre outras) e do seu risco global — e não apenas do número na balança. Essa avaliação deve ser sempre individualizada.
Preciso usar para sempre?
Depende do caso. Como em outras condições crônicas, a suspensão abrupta costuma trazer recuperação parcial do peso perdido e dos fatores de risco associados. A duração do tratamento é definida junto com o seu médico, de acordo com a resposta e os objetivos.
Essas medicações substituem dieta e atividade física?
Não. Os próprios estudos que comprovaram esses benefícios foram conduzidos com acompanhamento de estilo de vida em paralelo. A medicação potencializa o resultado, mas não substitui alimentação adequada, atividade física e, especialmente, a preservação da massa muscular.
Qualquer pessoa pode comprar e usar por conta própria?
Não é recomendado. O uso sem avaliação médica ignora contraindicações importantes, aumenta o risco de efeitos colaterais evitáveis e costuma ser feito com doses ou titulação inadequadas. O acompanhamento médico é parte do que torna essas medicações seguras nos estudos.
Existe risco de reganho de peso depois que eu parar de usar?
Sim, é um risco real e bem documentado — por isso essas medicações costumam ser indicadas para uso prolongado, como no tratamento de outras condições crônicas. Interromper o uso sem uma reeducação alimentar e uma rotina de atividade física consolidadas aumenta a chance de reganho do peso perdido. Esse é mais um motivo pelo qual o acompanhamento médico e nutrológico contínuo faz parte do tratamento, e não apenas o uso isolado da caneta.