O hipogonadismo masculino — a produção insuficiente de testosterona pelo corpo — causa sintomas como fadiga, queda de libido, perda de massa muscular, ganho de gordura e alterações de humor. A reposição de testosterona (TRT) é o tratamento indicado quando o diagnóstico é confirmado por sintomas associados a níveis laboratoriais consistentemente baixos, mas por anos existiu preocupação sobre seus efeitos no coração.
O que o estudo TRAVERSE mostrou
Em 2023, o estudo TRAVERSE — o maior e mais bem desenhado até hoje sobre o tema, com mais de 5.000 homens de 45 a 80 anos com hipogonadismo e risco cardiovascular preexistente ou elevado — mostrou que a reposição de testosterona não foi inferior ao placebo quanto à incidência de eventos cardiovasculares maiores (infarto, AVC e morte cardiovascular). Esse resultado foi importante o suficiente para que, em 2025, a agência reguladora americana (FDA) removesse o alerta mais grave de segurança cardiovascular que constava na bula do medicamento havia anos.
Mas nem tudo foi tranquilizador: o mesmo estudo TRAVERSE identificou uma incidência maior de fibrilação atrial, embolia pulmonar e lesão renal aguda no grupo que usou testosterona, em comparação ao placebo. Ou seja: o risco de infarto e AVC não aumentou, mas outros riscos específicos — principalmente de arritmia — precisam ser monitorados durante o tratamento.
Quem pode considerar a reposição
A TRT é indicada apenas para homens com diagnóstico confirmado de hipogonadismo — sintomas característicos associados a exames de sangue com testosterona consistentemente baixa, colhidos pela manhã e repetidos para confirmação. Não é indicada para "otimização" em homens com níveis hormonais normais, uso estético ou para ganho de massa muscular sem diagnóstico real — um uso, aliás, cada vez mais comum e que carrega riscos sem o benefício terapêutico correspondente.
Acompanhamento durante o tratamento
Quem inicia a reposição de testosterona precisa de acompanhamento médico regular, incluindo exames de sangue periódicos (hemograma, já que a testosterona pode elevar a produção de glóbulos vermelhos), avaliação da próstata e monitoramento cardiovascular — principalmente em quem já tem fatores de risco ou histórico de arritmia.
Perguntas frequentes sobre reposição hormonal e coração
Testosterona baixa aumenta o risco cardiovascular por si só?
Existem evidências associando níveis muito baixos de testosterona a pior perfil metabólico e maior risco cardiovascular, mas essa relação ainda não é totalmente definida como causal — é um dos motivos pelos quais o diagnóstico correto, e não apenas o número do exame, deve guiar a decisão de tratar.
Reposição de testosterona é segura para quem já teve infarto?
O estudo TRAVERSE incluiu homens com doença cardiovascular preexistente ou alto risco e não encontrou aumento de eventos cardíacos maiores, mas cada caso deve ser avaliado individualmente, especialmente pelo risco aumentado de arritmia identificado no estudo.
Qualquer homem com queda de libido pode fazer reposição hormonal?
Não. É necessário confirmar o diagnóstico de hipogonadismo com exames laboratoriais — a queda de libido tem muitas outras causas possíveis, e repor testosterona sem diagnóstico correto expõe a riscos sem o benefício esperado.
A reposição de testosterona precisa ser para sempre?
Na maioria dos casos de hipogonadismo confirmado, sim, é um tratamento contínuo — mas a decisão de manter, ajustar ou suspender deve ser sempre reavaliada em consultas periódicas, junto com os exames de acompanhamento.
— Dr. Murilo Camargo